//Uma Carta de Aleppo, Síria

Uma Carta de Aleppo, Síria

2013-05-23T14:11:30+00:00maio 23rd, 2013|Projetos|

Contando sobre o rápido desenvolvimento dos eventos ligados ao conflito da Síria, que já dura dois anos, o membro da congregação dos Irmãos Maristas, George Sabe, escreve uma carta, originada em Aleppo, cidade onde muitas famílias cristãs se viram obrigadas a deslocar-se devido à invasão dos rebeldes que lutam pelo fim do regime de Bashar al-Assad, atual presidente da Síria. Os acontecimentos relatados ocorreram justamente durante a Semana Santa e os primeiros dias da Páscoa.

O irmão George relata, na carta enviada para a Associação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre, que recebeu o primeiro telefonema informando-lhe que o distrito de DJabal al Sayde, em Aleppo, estava sendo invadido por rebeldes que, aos gritos, intimavam as pessoas a ficar dentro de seus apartamentos. “A ameaça era real ou era uma intimidação sem nenhum efeito sobre a vida da vizinhança? Aos poucos, a notícia anunciada comprovou ser uma verdadeira invasão da área. As lojas foram quebradas, carros danificados ou roubados. Rajadas de fogo obrigaram as pessoas a refugiarem-se nas escadas. Adultos e crianças choravam. O pânico era geral! Perguntas começaram a surgir: Será que eles vão sair? O que fazer? Uma verdadeira angústia! A verdadeira tragédia é então anunciada…”, escreveu.

Em outro trecho comenta: “Ao longo das horas, o feroz combate começa. As casas são ‘visitadas’ por elementos armados, a eletricidade é desligada, a água também… As famílias imaginam que será apenas uma questão de horas, eles esperam, esperam, mas nada muda! Pelo contrário, a evidência é outra. Os homens fortemente armados ficam… A noite cai. Eles observam até o menor ruído, o menor grito ou um uivo qualquer… Nós passamos a noite em claro, oramos e esperamos uma ajuda do Céu… Era a nossa última esperança…”

“Na madrugada do Sábado de Aleluia, os edifícios começam a aparecer, as pessoas estão deixando suas casas. Eles levam consigo as necessidades básicas: alguns documentos importantes, algumas roupas, algum dinheiro sobrando e nada mais… O êxodo começa; as pessoas vagam em busca de uma possível saída deste inferno”, relata o irmão marista.

“As ruas estão vazias, as luzes apagadas. Pessoas lançam um último olhar em seu apartamento (…) Antes de fechar a porta, fazem o sinal da cruz, como se dissessem ao Senhor ‘em suas mãos nos entregamos’”, conta o membro desta comunidade Marista na Síria.

Após fecharem as portas, começa a tensão para estas famílias. Irmão George descreveu: “era preciso agir rapidamente! Caso contrário, a morte poderia ocorrer a qualquer momento… Um povo começa a marchar, as pessoas vagam. (…) Eles são forçados a esvaziar o bairro, o lugar de suas vidas, para que este se torne um cemitério de memórias”.

Para fugir deste “inferno”, relata o religioso, era preciso “mover-se o mais rápido possível e a qualquer preço… Nenhum carro pode se mover. Era preciso caminhar, caminhar e caminhar… Os minutos se tornam uma eternidade… A página é virada! Tudo está consumado!”

O sábado que precedeu o Domingo de Páscoa começou com a chegada dos peregrinos à comunidade Marista: único local de acolhida próximo onde os deslocados eram bem-vindos. Todos agradeciam dizendo em sua língua nativa: “Hamdellah al Salameh”, que quer dizer “Agradeço a Deus por sua segurança”.

Seguindo o intenso relato, irmão George escreveu ainda que 300 famílias cristãs e muitas outras da região caíram nas mãos de homens armados. “Nós mesmos, os maristas, já não podemos voltar à nossa vizinhança local. A preocupação aumenta em nós: o que aconteceu com as famílias muçulmanas deslocadas que estavam nas escolas? Não obtivemos resposta alguma…”.

Assim a comunidade Marista tornou-se um centro de informação para os habitantes locais para obter notícias e até mesmo encontrar seus parentes e vizinhos deslocados. “A última família que deixou a vila, no dia 3 abril, descreve seu êxodo: Todos os membros, incluindo a avó de idade avançada, viram os furos que os pistoleiros fizeram nas paredes das casas com suas armas… Eles descrevem o horror de estar no inferno da guerra, do medo e do terror…”

Com a chegada de tantas famílias surgem também os pedidos de roupas, colchões, cobertores, travesseiros, toalhas, sabonetes, e os maristas buscam atender todas as suas necessidades. “Os espaços vazios da comunidade foram preenchidos… Decidimos liberar dois locais e construir 4 chuveiros e 4 banheiros”, conta.

Junto de funcionários da Cáritas os irmãos maristas organizam uma celebração eucarística, seguida de uma distribuição de doações em dinheiro e roupas. A maioria das famílias que participam na Eucaristia, comungam, rezam e acompanham o coro da paróquia… As famílias não paravam de chegar e, na terça-feira de Páscoa, famílias, com 7 e até 11 filhos, foram acolhidas. “Nós compramos uma máquina de lavar, adicionamos quatro reservatórios de água aos já existentes, pudemos comprar roupas, calçados, travesseiros, colchões, etc…”

O projeto dos maristas “Aprender para crescer”, também cedeu seu espaço e agora funciona na comunidade local… “As crianças chegam em grandes quantidades. Elas precisam de espaço, de lugar para desenhar, brincar, partilhar… Montamos também um posto de saúde… As consultas são diárias e os remédios gratuitos”, prossegue o marista.

“E o amanhã?”, esta é a pergunta de todas as famílias da “Jabal al Sayde”. Apesar de anúncios do fim da guerra, até agora só resta-lhes a esperança pois as expectativas sobre seu futuro são absolutamente incertas, ninguém sabe se a situação é provisória, nem quanto tempo durará este refúgio.

“Nós, os Irmãos Maristas, sempre oferecemos uma mão amiga para viver a solidariedade evangélica, uma solidariedade que anuncia e demonstra o amor de Deus por cada homem e mulher… Juntos, vamos buscar construir a paz, a paz da Páscoa”, conclui a missiva do dia 21 de abril de 2013, enviada diretamente da Síria pelo Irmão George Sabe.

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