//“Sem lugar da hospedaria”

“Sem lugar da hospedaria”

2017-12-20T19:46:38+00:00dezembro 20th, 2017|Notícias|

Exatamente 70 anos atrás, Padre Werenfried escreveu o conhecido artigo “Sem lugar na hospedaria” para o Natal de 1947 na revista mensal “Toren”, da Abadia Premonstratense em Tongerlo (Bélgica).Nele, Pe. Werenfried pediu ajuda aos 14 milhões de refugiados alemães expulsos de suas casas nos antigos territórios alemães da Europa Oriental e que agora viviam na pobreza em uma Alemanha em escombros.O convite para reconciliação, que parecia escandaloso no pós-guerra, foi que começou, há 70 anos, a atual Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre. Padre Werenfried van Straaten estava convencido de que o amor de Deus é mais poderoso do que a ofensa e a amargura do homem. Um amor desinteressado, humilde e poderoso, que pode mover as montanhas.


Sem lugar na hospedaria


ECHO (TOREN DEZ.47)

Queridos amigos,

Quando aconteceu o primeiro Natal, as estradas para Belém estavam cheias de pessoas. Pessoas que se apressavam a chegar à cidade do Rei David para aí se apresentarem no recenseamento decretado por César Augusto. Lutavam com mãos, pés e cotovelos para ganharem terreno. É que já sabiam que só os primeiros teriam hipótese de encontrar um alojamento para passarem a noite. E como acontece tão frequentemente, também aconteceu então: os mais ricos e os mais poderosos que montavam um cavalo ou um camelo, ou que tinham um coche luxuoso, afastavam do caminho os mais pequenos nos seus miseráveis burritos e conseguiam a prioridade nas hospedarias. E para Maria, que trazia Jesus no ventre, não houve nenhum lugar na estalagem.

Vêem como as coisas são? Como uma cidade é tomada de surpresa por pessoas que só pensam em si? Fazem alguma ideia de como era em Antuérpia durante a guerra, quando se tomava de assalto o eléctrico 41? Como aí as pessoas lutavam e se maltratavam? Como o amável empregado de escritório e o pequeno burguês de repente se transformavam em bestas? Como cada gesto de gentileza e cada sentimento nobre desapareciam e as pessoas só lutavam pelo seu próprio eu, sem tolerância? Cada um por si! Assim aconteceu também em Belém. E, por isso, não houve nenhum lugar para a Sagrada Família. Nenhum lugar para Cristo! E Maria sentia que estava a chegar a sua hora. E José não sabia o que fazer. Mas não havia solução: sós e esquecidos, erraram pela multidão…

As coisas não mudaram muito. Continua a não haver lugar para Cristo. Porque as pessoas continuam a deixar-se conduzir pelo seu próprio egoísmo. E porque na realidade não lhes interessa, desde que elas próprias estejam bem aquecidas e estejam em boas mãos.

Muitos de nós estamos bem aquecidos; a vida corre-nos bem. Temos uma casa, janelas de vidro para nos protegerem contra o frio e, não obstante a escassez de alimentos e de outras coisas por causa do pós-guerra, não obstante os preços exorbitantes, na realidade não nos falta muita coisa. Mas será que nos lembramos que lá fora há milhares de “Marias” e “Josés” que se arrastam pela Europa? Que Cristo chora nos pobres, nos sem-abrigo e nos refugiados, nos que padecem de fome e sede, nos presos e nos doentes, e em todos aqueles a quem Ele chamou os mais pequenos de entre os Seus, e em cuja miséria ele esconde o seu rosto divino-humano?

O Natal vem outra vez e Cristo anseia por ser acolhido pelos Seus. Ele erra invisível pelas nossas estradas e por toda a Europa. Não se comportem também como a multidão de predadores de Belém, como os estalajadeiros indiferentes, como os burgueses bem alimentados na sua autocracia corriqueira, mas abram as vossas portas e os vossos corações a cada necessidade que é a necessidade de Cristo.

A necessidade de Cristo? Na Alemanha centenas de cidades jazem em escombros e cinzas. Com frequência não resta quase nada para além dos bunkers que os alemães construíram por toda a parte para protegerem a população contra os ataques aéreos. Nestes bunkers vivem agora muitas centenas de milhares de pessoas. Aí reina um fedor medonho. Cada família, na medida em que ainda se pode falar de família, está encurralada em escassos metros quadrados de solo de betão. Não há lume nem aquecimento, só o calor do corpo do vizinho.

Durante a guerra e a ocupação aconteceram grandes injustiças, mas estes exilados continuam a ser nossos irmãos e irmãs. Cristo também quer viver neles com a Sua pureza, o Seu amor ao próximo e a Sua bondade. Os pastores vieram fazer as suas ofertas a Cristo num estábulo. Mas estas pessoas nem sequer têm um estábulo. Nos seus bunkers, Cristo não pode viver humanamente. Aí não há lugar para Ele. Esta é, quase três anos após o fim da guerra, a necessidade de Cristo!

O mundo em que vivemos é uma loucura. Um mundo que ao longo de séculos considera o egoísmo sem piedade como a mais alta sabedoria… e que se afunda sem cessar. Um mundo de predadores e de desordeiros. Um mundo onde as pessoas colocaram o próprio EU acima do amor, tanto nas coisas grandes como nas pequenas. De César a Napoleão, de Hitler a Estaline e aos estrategas atómicos americanos foi sempre igual e provavelmente será sempre assim. César foi assassinado. Napoleão morreu no exílio. Hitler suicidou-se, Mussolini foi enforcado… Quem é o próximo? A violência e o egoísmo desenfreado conduzem necessariamente ao declínio. Nós sabemo-lo. Nós próprios assistimos a isso e nós próprios suportamos as consequências. No entanto, como se fossemos cegos e malucos, prosseguimos sempre o mesmo caminho. O caminho do egoísmo nas coisas grandes como nas pequenas. Desde as Conferências de Yalta e de Potsdam dos “Cinco Grandes”, à pequena ganância do pequeno camponês usurário, passando pelas cobardes malícias dos nossos próprios pecados, este mundo é dominado por egoísmo.

A Sagrada Escritura contém uma frase trágica: “Ele veio ao que era Seu e os Seus não O receberam.” Não houve nenhum lugar para Ele na estalagem porque os “Seus” não tinham amor. Aqui reside a tenebrosa raiz da guerra e da destruição. E nós sabemos que Ele é o Príncipe da Paz, pela qual todo o mundo anseia, da qual tanto necessitamos. Restauremos então o amor em nome de Deus, abramos-Lhe as portas e os corações. É que nós, seres humanos, formamos um todo. Todos. Mesmo alemães e comunistas. Mesmo os pobres diabos enregelados nos seus bunkers. Mesmo os refugiados e os expatriados. Temos que arranjar lugar uns para os outros e temos que nos amar uns aos outros. Não com palavras, mas com actos. Como S. Martinho. Ele montava um cavalo quando um pobre homem lhe pediu uma esmola. Mas ele não tinha mais nada. Então, tomou o seu manto e rasgou-o, de forma a poder dar ao pobre uma metade. E este pobre homem era o próprio Cristo. Cada pobre, em qualquer sentido da palavra, também é Cristo. Assim, dêem roupas e alimentos aos vossos irmãos na Alemanha e não exijam que eles vos devolvam a última libra de carvão. Dêem aos sem-abrigo um dos quartos da vossa casa. Reservem um lugar à vossa mesa para os famintos. E dêem a todos o vosso amor e caridade, o vosso perdão e um rosto amável.

S. João escrevia aos cristãos: “Foi com isto que ficámos a conhecer o amor: Ele, Jesus, deu a Sua vida por nós; assim também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos. Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele? Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade.” (Jo 3,16-18).

Enquanto não tivermos feito isto, a nossa porta e o nosso coração permanecem fechados a Cristo. Então não temos lugar para Ele! Todos os presépios, árvores de Natal com luz de vela, enfeites e estrelas cintilantes não são capazes de reparar estes erros. Façamos então a reconciliação uns com os outros nos nossos corações, nos destroços do país nosso inimigo. Esqueçamos as velhas desavenças. Estendamos as mãos uns aos outros com doçura e com bondade. Restauremos o amor. É que a pequena criança que chora no presépio é Emanuel, Deus connosco. E Deus é amor.

Werenfried van Straaten

One Comment

  1. Silvano 31 de dezembro de 2017 at 09:07 - Reply

    Quero recebe os informativo

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