//As raízes de um conflito social e religioso na Nigéria

As raízes de um conflito social e religioso na Nigéria

2018-07-11T14:29:03+00:00julho 11th, 2018|Notícias|

“O gado, por mais importante que seja, não pode ser mais valorizado do que seres humanos”.

O Bispo Ignatius Kaigama – Arcebispo de Jos, da capital do Estado de Plateau (centro geográfico da Nigéria), visitou recentemente o Canadá. A convite do escritório canadense da Fundação Pontifícia ACN, falou sobre um dos principais conflitos de seu país: o que há entre os pastores Fulani nômades muçulmanos e os fazendeiros cristãos.

Defensor antigo e dedicado da paz, Dom Kaigama partilha seu conhecimento acerca do conflito cuja solução requer um diálogo humano e habilidoso, numa disputa sempre crescente pelo bem comum.

Dom Kaigama, poderia nos explicar o que mudou nesse conflito que já se desenrola há anos?

A questão dos pastores de gado Fulani e os fazendeiros, tornou-se muito complicada. Os fazendeiros cultivam sua terra usando métodos manuais. Quando as plantações crescem, eles reclamam que as vacas Fulani vêm e as comem. É uma situação de grande preocupação para eles, porque lhes tira o principal meio de subsistência e ocasiona fortes tensões entre as duas comunidades.

Como retaliação, os fazendeiros atacam as vacas. As vacas valem mais do que qualquer outra coisa para os Fulani. Além disso, se você mata uma vaca ou as ataca, os pastores respondem atacando tudo o que te pertence. Algumas vezes eles chegam até a queimar casas, matar famílias e destruir plantações. Este é um problema muito sério que encontramos especialmente na parte norte da Nigéria.

Comparando com a situação atual, o que piorou?

Pastores e fazendeiros sempre estiveram em conflito, mas não nesta escala. Recentemente, os pastores estão mais audaciosos na invasão e destruição das plantações dos fazendeiros; são tão violentos que os fazendeiros são obrigados a reagir. No passado havia problemas entre os dois grupos; no entanto, não eram tão frequentes.

Há alguma razão para o aumento da violência?

Uma das razões pode ser o fato do presidente do país – Muhammadu Buhari – ser um Fulani; os pastores pensam que têm nele um aliado e que por isso podem fazer o que quiserem sem nenhuma consequência. É a única explicação para este repentino aumento da violência.

Mesmo o presidente de nosso país reconhece que os Fulani que conhecíamos no passado, usavam varas e cutelos somente para cortar folhas e alimentar seus animais. Agora, destroem as plantações portando armas sofisticadas. Não sabemos onde eles conseguem essas armas; o que é muito preocupante, pois pessoas estão sendo mortas devido ao conflito entre pastores e fazendeiros.

O senhor mencionou o fato de que há novas armas e disse não saber de onde elas vêm. O senhor tem alguma ideia da procedência delas?

O Presidente Buhari diz que elas são sobra da “Era Gaddafi” na Líbia, que entraram na Nigéria; desse modo as pessoas conseguiram acesso a elas. Afinal, as pessoas podem conseguir armas ilegalmente desde que tenham dinheiro. Ademais, os pastores podem vender suas vacas e comprar essas armas sofisticadas. Esta é uma realidade porque, de qualquer forma, os pastores são mais ricos que os fazendeiros; no entanto, os fazendeiros também adquirem armas. Então, temos vários fatores combinados: as armas estrangeiras que circulam, o fato de que podem comprar as armas que, muitas vezes, são fabricadas aqui mesmo ou importadas… Na verdade, não sabemos quem são os fornecedores”.

Infelizmente, semana passada, uma nova onda de violência aconteceu em parte do estado de Plateau, onde está localizada sua diocese. O senhor foi um dos pioneiros do diálogo inter-religioso e interétnico na capital do mesmo estado, onde fundou o Centro para o Diálogo, Reconciliação e Paz em 2011. O que significa para o senhor as notícias sobre as mortes?

Eu posso partilhar a história dos enormes esforços pela paz na Nigéria, usando como exemplo o Centro de Diálogo de Reconciliação e Paz (DREP) em Jos. DREP é uma iniciativa da Arquidiocese Católica de Jos, cuja intenção é oferecer um lugar neutro, onde a reconciliação entre as partes em disputa possa acontecer; Ademais, o Centro de Treinamento Vocacional Inter-religioso em Bokkos, perto de Barkin Ladi, onde jovens muçulmanos e cristãos recebem treinamento vocacional por dois anos e aprendem a cultura civilizada do diálogo; ao invés do confronto hostil ao menor sinal de provocação. Um pouco antes de deixar a Nigéria, tivemos encontros no Centro DREP, em Jos, com os grupos étnicos Fulani e Irigwe; o intuito seria o de formular uma estratégia para evitar futuras matanças. Até mesmo concordamos em organizar uma prece inter-religiosa em agosto.

Saber que as matanças aconteceram novamente foi um choque tremendo para mim. A terrível e indigna morte de seres humanos, destruição de casas e meios de sobrevivência é uma desgraça para a humanidade; de fato uma vergonhosa projeção da imagem negativa dos nigerianos. Mas mesmo no meio da violência causada ou pelo Boko Haram, pelos pastores militantes, ou ainda, pelos identificados como “invasores estrangeiros”, acredito que a paz é possível enquanto estivermos determinados a sustentar a cultura da conduta civilizada e da paz.

Qual é o seu apelo neste momento tão difícil?

Eu acredito que ainda não se fez o suficiente para evitar as matanças dos pastores. Pode ser por conta da chamada “agenda oculta” ou simplesmente pela ausência de coragem, determinação, patriotismo ou vontade política. O gado, por mais importante que seja, não pode ser mais valorizado do que os seres humanos. Isto não significa que as vacas devam ser feridas, roubadas ou mortas. Nosso Presidente deveria se pronunciar de forma clara, categórica e corajosa para explicar a seus compatriotas porque o diálogo é a melhor solução.

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